Roteiro China
Reproducao / Vitor Vianna

Roteiro China

Estou escrevendo este texto diretamente de Hong Kong, última etapa da viagem que estou fazendo pela China, e depois de passar por Pequim e Xangai, pegar trens, metrôs, conhecer parques, atrações históricas e viver algumas das peculiaridades do país, quero compartilhar um roteiro que considero muito interessante para quem está começando a se interessar pela China.

A China é um país enorme e muito diferente do Brasil. A forma de pagar, os aplicativos, o idioma, a internet, as distâncias, os trens, a maneira de comprar ingressos e até o fato de o passaporte estar ligado a muitos dos seus bilhetes fazem parte de uma dinâmica que exige um pouco de adaptação. Por isso, se esta for sua primeira vez, eu particularmente não começaria tentando encaixar seis, sete ou oito cidades em uma única viagem. Existem roteiros incríveis passando por lugares como Chengdu, Chongqing, Zhangjiajie, Xi’an e tantas outras regiões, mas eu deixaria essa China mais complexa para uma segunda viagem.

Para começar, faria exatamente esta combinação: Pequim + Xangai + Hong Kong, incluindo os três grandes parques temáticos pelo caminho e usando o trem como parte da própria experiência. É um roteiro que já oferece história, modernidade, cultura, gastronomia, uma China extremamente tecnológica e, no final, uma Hong Kong completamente diferente de tudo aquilo que você encontrou anteriormente.

PEQUIM — 4 NOITES
Eu começaria a viagem por Pequim, porque acho interessante ter logo nos primeiros dias um contato com aquela China mais histórica e monumental que a maioria de nós imaginou antes de conhecer o país. É aqui que você pode visitar a Cidade Proibida, Praça Tiananmen, Templo do Céu, conhecer os hutongs e, evidentemente, reservar um dia para conhecer a Grande Muralha da China.

Para mim, quatro noites é um período muito bom para uma primeira viagem. Você não vai conhecer tudo, porque Pequim é gigantesca, mas consegue visitar os pontos mais importantes sem precisar transformar todos os dias em uma maratona. Eu ainda reservaria um desses dias para o Universal Beijing Resort. Portanto, se parque de diversão não fizer parte do seu perfil, você automaticamente ganha mais um dia para explorar a cidade.

E já deixo uma dica que vale para toda a viagem: use o metrô. Não tenha medo. As redes de transporte público das grandes cidades chinesas são enormes, mas funcionam muito bem, e andar de metrô faz você entender um pouco mais a dimensão e o cotidiano dessas cidades.

Como ir de Pequim para Xangai
Aqui eu não pegaria avião. Pegaria o trem de alta velocidade, que por si só já é uma experiência que merece fazer parte de uma viagem à China. A linha entre Pequim e Xangai tem aproximadamente 1.318 quilômetros e os serviços mais rápidos atualmente fazem o trajeto em cerca de 4 horas e 18 minutos.

Normalmente você sai de Beijing South Railway Station e chega a Shanghai Hongqiao, e é importante chegar à estação com antecedência porque as estações chinesas são enormes e existe controle de segurança antes do embarque. Além disso, para o turista estrangeiro, o passaporte tem um papel fundamental, já que ele funciona como identificação vinculada à passagem.

Não olhe para essas quatro ou cinco horas como um tempo “perdido”. Pelo contrário. Você percorre mais de mil quilômetros observando o país pela janela e experimenta um dos sistemas ferroviários mais impressionantes do mundo.

XANGAI — 3 NOITES
Chegar a Xangai depois de Pequim é justamente uma das razões pelas quais eu gosto tanto desse roteiro. O contraste é enorme. Você sai de uma cidade marcada pela história imperial e desembarca numa metrópole que, em vários momentos, parece cenário de um filme futurista.

Eu reservaria três noites em Xangai. Conheceria o Bund, caminharia pela orla observando Pudong do outro lado do rio, atravessaria para a região dos arranha-céus, exploraria um pouco das áreas mais tradicionais e simplesmente separaria tempo para caminhar pela cidade. Xangai é daqueles lugares em que o passeio não precisa ser apenas uma sequência de atrações marcadas no mapa.

Também deixaria um dia inteiro para a Shanghai Disneyland. Novamente, se você não gosta de parques, use esse dia para conhecer mais da cidade ou até fazer um bate-volta. Existem lugares interessantíssimos nos arredores, inclusive as tradicionais cidades sobre canais.

Depois de três noites, eu faria uma escolha que muda completamente a experiência do deslocamento seguinte: em vez de voar de Xangai para Hong Kong, pegaria o trem noturno.

Como ir de Xangai para Hong Kong: durma no trem e acorde em outra cidade
Essa foi uma das experiências que eu mais queria fazer neste roteiro. Atualmente, o trem G899 sai de Shanghai Hongqiao às 20h15 e chega a Hong Kong West Kowloon por volta das 7h25 da manhã seguinte, de acordo com a programação oficial publicada para 2026. Como horários e dias de operação podem sofrer alterações, vale sempre conferir novamente para a sua data.

E aqui existe uma informação importante: o trem não é inteiro de camas. A composição tem 16 vagões, sendo 14 vagões-leito e dois vagões com assentos nas categorias Premium Class e Second Class. Ou seja, quem quiser pode fazer o mesmo trajeto sentado, mas, para uma viagem noturna com mais de 11 horas, eu escolheria novamente a cabine-leito.

A categoria em que viajamos é a Sleeper Class, ou classe leito. São cabines fechadas com quatro camas, distribuídas em duas beliches, com tomada em cada cama, pequena mesa, espaço para bagagem e uma porta de correr separando a cabine do corredor.

E aqui faço uma outra observação importante: não gosto de falar que você simplesmente “economiza uma diária de hotel”. Você substitui uma noite de hotel por uma noite no trem. Você estaria pagando para dormir de qualquer forma. A diferença é que, enquanto dorme, percorre mais de mil quilômetros e acorda praticamente no seu próximo destino.

Minha dica bônus para a chegada em Hong Kong
Aqui está uma dica que eu daria principalmente para quem quer chegar com mais conforto. O trem chega a Hong Kong por volta das 7h25 da manhã, mas normalmente o check-in do hotel só começa à tarde. Se o orçamento permitir, reserve o hotel de Hong Kong começando na noite anterior, justamente na noite em que você estará dentro do trem. Avise ao hotel com antecedência que você fará um check-in tardio, somente na manhã seguinte, para que eles não considerem a reserva como no-show.

Assim, ao chegar a Hong Kong cedo, você não precisa deixar as malas e esperar até 14h ou 15h. Vai diretamente para o hotel, entra no quarto, toma banho, descansa e, dependendo da tarifa contratada com o hotel, ainda pode aproveitar o café da manhã. Para mim, depois de dormir em um trem, isso faz uma diferença enorme.

HONG KONG — 5 NOITES
Depois de Pequim e Xangai, eu ficaria cinco noites em Hong Kong. E não colocaria Hong Kong apenas como uma escala rápida de duas noites, principalmente numa primeira viagem. A experiência aqui é completamente diferente da China continental. A cidade tem outra história, outra organização urbana e uma mistura muito forte de influências asiáticas e ocidentais. Inclusive, ao chegar da China continental, existe controle de imigração para entrar em Hong Kong.

Eu reservaria um dia para conhecer o Tian Tan Buddha, na Ilha de Lantau, e explorar aquela região com calma. Em outros dias, caminharia por Central, Causeway Bay e Times Square, conheceria os dois lados da Victoria Harbour, atravessaria de Star Ferry, andaria muito de metrô e exploraria Kowloon, Tsim Sha Tsui e as áreas comerciais e gastronômicas.

Também faria a roda gigante  Hong Kong Observation Wheel, principalmente no final da tarde ou à noite, quando a iluminação dos prédios começa a transformar a paisagem. Hong Kong é uma cidade que muda completamente conforme você atravessa a baía, então não fique apenas de um lado.

E, claro, para quem está fazendo esse roteiro pensando também nos parques, reservaria um dia inteiro para a Hong Kong Disneyland. Dessa forma, você consegue fazer, na mesma viagem, Universal Beijing, Shanghai Disneyland e Hong Kong Disneyland.

Esse é outro motivo pelo qual cinco noites funcionam tão bem. Se você tirar um dia inteiro para o parque e outro praticamente inteiro para Lantau e o Buda, ainda terá alguns dias para realmente descobrir Hong Kong.

BÔNUS: MACAU — MAIS 2 NOITES
Se você tiver disponibilidade para aumentar a viagem, eu faria uma extensão de duas noites em Macau. Sim, é perfeitamente possível fazer Macau como bate-volta saindo de Hong Kong. Mas, se você tiver tempo, acho muito mais interessante dormir por lá. Macau muda bastante quando os visitantes de bate-volta vão embora e permite conhecer tanto a parte histórica, com aquela herança portuguesa que chama imediatamente a atenção dos brasileiros, quanto a região de Cotai, onde estão alguns dos hotéis e complexos de entretenimento mais impressionantes da Ásia.

Como ir de Hong Kong para Macau
Você tem basicamente duas alternativas muito práticas. A primeira é o ferry. Existem serviços saindo do Hong Kong-Macau Ferry Terminal, em Sheung Wan, para o Outer Harbour, em Macau, e também para Taipa. A viagem leva aproximadamente uma hora e existem várias saídas durante o dia.

Para quem vai ficar na parte mais histórica de Macau, chegar pelo Outer Harbour pode ser bastante conveniente. Para quem vai se hospedar na região de Cotai, onde ficam muitos dos grandes resorts, chegar por Taipa também pode fazer bastante sentido.

A outra alternativa é ir pela impressionante Hong Kong–Zhuhai–Macao Bridge, um sistema de ponte e túnel com cerca de 55 quilômetros. É possível utilizar ônibus shuttle entre os postos de Hong Kong e Macau ou ônibus transfronteiriços que partem de determinados pontos da área urbana de Hong Kong.

Quando eu digo “ir de carro”, é importante entender que não é simplesmente chamar qualquer táxi em Hong Kong e pedir para ele levar você até o hotel em Macau. A travessia internacional pela ponte exige veículo autorizado para operação transfronteiriça. Por isso, para o turista, as opções práticas são ônibus shuttle, ônibus transfronteiriço ou transfer privado devidamente habilitado. Ao chegar ao posto de Macau, também é possível continuar de ônibus urbano ou táxi.

E lembre-se de que Hong Kong e Macau possuem controles migratórios próprios. Portanto, você passa pela imigração na saída de Hong Kong e novamente na entrada em Macau. Não trate esse deslocamento como se estivesse simplesmente atravessando de um bairro para outro.

QUANTOS DIAS EU FARIA?
Para uma primeira viagem, meu roteiro base ficaria assim:

Pequim: 4 noites
Xangai: 3 noites
Trem noturno Xangai–Hong Kong: 1 noite
Hong Kong: 4 noites

São 12 noites, ou aproximadamente 13 dias de viagem, sem contar os voos internacionais dependendo do horário de chegada e saída. Se quiser incluir Macau com calma, acrescentaria mais duas noites, chegando a um roteiro de aproximadamente 16 dias.

É claro que a China tem muito mais. Tem Xi’an e os Guerreiros de Terracota, Chengdu e os pandas, Chongqing, Zhangjiajie e suas montanhas que ficaram mundialmente associadas a Avatar, Guilin, Guangzhou e dezenas de outros lugares que poderiam facilmente render várias viagens. Mas esse é justamente o ponto. Para quem está começando, eu não tentaria conhecer a China inteira na primeira vez. Eu faria um roteiro mais simples, aprenderia a lidar com os aplicativos, o transporte, os pagamentos e as peculiaridades do país e aproveitaria de verdade cada cidade.

Depois de Pequim, Xangai e agora escrevendo este texto daqui de Hong Kong, posso dizer que as três entregam experiências tão diferentes que, em determinados momentos, parece que você fez várias viagens dentro de uma só. E talvez essa seja a melhor forma de começar a descobrir a China.

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