Conheça Terra Ronca, maior complexo de cavernas da América do Sul

O nordeste goiano abriga o maior complexo de carvenas e grutas de toda a América do Sul. Terra Ronca é o nome de uma caverna, de um parque estadual e, de forma mais ampla, de uma região turística em desenvolvimento e expansão. É importante salientar que o roteiro não inclui apenas visitas ao interior das cavidades, mas também rios, cachoeiras, trilhas, rapel, boia-cross, flutuação e turismo religioso.
O Parque Estadual de Terra Ronca (PETeR) ocupa cerca de 57 mil hectare s nos municípios de São Domingos e Guarani de Goiás, perto da divisa com a Bahia. Cirada em 1989, a unidade de conservação protege o principal complexo de cavernas da América do Sul, além de rios, mananciais, vegetação do Cerrado e espécies adaptadas ao ambiente subterrâneo.
A região possui mais de cavernas subterrâneas, sendo cerca de 40 exploradas cientificamente e mapeadas e cinco com visitação aberta: Terra Ronca I, Terra Ronca II, Angélica, São Bernado e São Mateus. O parque funciona todos os dias, das 8h às 17h, e a entrada nas cavidades exige o acompanhamento de um condutor credenciado.
Para o guia turístico Dorival do Gato, que nasceu na região e começou a conduzir visitantes em 1994, o ideal é reservar pelo menos três dias para conhecer Terra Ronca. “Comecei a entrar em cavernas por curiosidade, por volta de 1990, e a conduzir visitantes em 1994, logo depois da expedição franco-brasileira”, conta.
Segundo o guia, as primeiras incursões despertaram o interesse dos moradores pela espeleologia e levaram à criação de um grupo local dedicado ao estudo das cavernas.
O conhecimento acumulado pelos condutores é parte importante da visitação. Além de conhecer os caminhos, eles acompanham a variação dos rios, as condições das estradas, os riscos de cada trajeto e a capacidade física necessária para os percursos.

Como surgiu o nome Terra Ronca?
Não existe uma única versão para a origem do nome. Dorival afirma que diferentes explicações são transmitidas pelos moradores.
A mais conhecida relaciona o “ronco” ao som produzido pelo gado que caminhava sobre o terreno acima das cavernas. Sem conhecer as cavidades existentes no subsolo, antigos moradores teriam associado o ruído ao próprio chão.
Outras versões atribuem o nome ao vento que atravessa as grandes aberturas ou ao som dos rios correndo entre as pedras.
“São várias histórias. Tem a do vento e tem a do rio também, com o barulho da água nas pedras”, conta o guia.
Mais do que uma curiosidade, as diferentes versões mostram como o conhecimento sobre as cavernas foi construído pela convivência dos moradores com o território, antes da chegada das expedições científicas e da organização do turismo.
Por que existem tantas cavernas em Terra Ronca?
A paisaggem do parque é resultado da presença de grandes rochas calcárias e da ação contínua da água. Ao penetrar nas fissuras do terreno, a água da chuva dissolve lentamente parte do calcário. Ao longo de milhares de anos, esse processo amplia pequenas rachaduras, abre galerias e forma salões, rios subterrâneos, sumidouros e dolinas — depressões ou aberturas provocadas pela dissolução ou pelo desabamento de partes da rocha.
A água também participa da formação dessas estruturas observadas dentro das cavernas. Ao gotejar do teto, deposita minerais e dá origem às estalactites, formando estalagmites ao alcançarem o chão. Em outros pontos surgem cortinas, colunas, travertinos e flores de calcita.

Formações provocadas pela ação da água e do tempo nas cavernas de Terra Ronca
Essa formação extremamente lenta explica por que o visitante não deve tocar, quebrar ou subir sobre as estruturas. Uma interferência de poucos segundos pode danificar o que levou milhares de anos para se formar.
A rede hídrica também ajuda a diferenciar Terra Ronca de outros destinos de cavernas. Os rios da Lapa, Angélica, São Bernardo e São Vicente atravessam ou se relacionam diretamente com os sistemas subterrâneos, criando percursos que combinam caminhada, água e ambientes de completa escuridão.
Qual é a maior caverna da região?
Entre as cavidades abertas regularmente, a maior em extensão é a São Mateus, com aproximadamente 22 quilômetro s.

A Angélica possui cerca de 14 quilômetros de extensão. Já a Terra Ronca I se destaca pelo tamanho da entrada, com aproximadamente 96 metros de altura e 120 metros de largura.
Esses números, entretanto, não representam a distância percorrida pelo turista. A visitação ocorre apenas em trechos delimitados, escolhidos de acordo com as condições ambientais, as regras de manejo, o preparo do grupo e a autorização para cada atividade.
O que conhecer em Terra Ronca
Cada caverna apresenta características próprias. Algumas permitem um primeiro contato mais acessível com o ambiente subterrâneo. Outras exigem descidas acentuadas, passagem por fendas, travessia de rios ou apoio de cordas.
Terra Ronca I: a entrada mais conhecida
A Terra Ronca I é o cartão-postal do parque. O acesso inicial acompanha o rio da Lapa até a entrada monumental da caverna, que possui aproximadamente 96 metros de altura e 120 metros de largur a.
Na boca da cavidade ficam um altar e a Sala dos Milagres, onde romeiros deixam objetos, fotografias e agradecimentos ao Bom Jesus da Lapa. Essa parte inicial reúne as dimensões natural, turística e religiosa do parque.
O percurso interno inclui salões extensos, travessia do rio da Lapa e duas claraboias — aberturas no teto que permitem a entrada de luz. Um dos espaços conhecidos é o Salão dos Namorados.
Terra Ronca II e o raio azul
Depois do percurso pela Terra Ronca I, uma trilha pela mata conduz à entrada da Terra Ronca II. A abertura possui cerca de 120 metros, e o roteiro turístico pode envolver aproximadamente um quilômetro de caminhada no interior.

Entre abril e julho, a posição do sol pode produzir um fenômeno conhecido como “raio azul”. Por volta do início da tarde, a luz atravessa uma abertura da caverna e pode adquirir uma tonalidade azulada ao encontrar o ambiente úmido.
A visualização depende da incidência solar, das condições do tempo e do horário. Por isso, mesmo dentro do período indicado, não existe garantia de que o fenômeno será observado em todas as visitas.
São Bernardo: descida e encontro dos rios
O sistema São Bernardo–Palmeiras é formado por galerias atravessadas pelos rios São Bernardo e Palmeiras. O acesso principal passa por uma dolina localizada nas proximidades do sumidouro e exige uma descida com cerca de 50 metros de desnível.
No interior, o teto alcança aproximadamente 15 metros de altura em alguns trechos. Entre os pontos de interesse estão o encontro dos rios e as chamadas flores de calcita.
O esforço físico é maior do que nos trechos iniciais da Angélica e da Terra Ronca I. O visitante deve conversar com o condutor antes de incluir São Bernardo no roteiro.
Destino de procissões religiosas
Antes de atrair aventureiros, pesquisadores e visitantes interessados nas cavernas, Terra Ronca já era um destino de peregrinação. Segundo o secretário municipal de Turismo de São Domingos, Cristiano Ferreira, a relação da população com a gruta começou por meio da devoção ao Bom Jesus da Lapa.
“A Terra Ronca começou com o turismo religioso. Antigamente, o povo de São Domingos ia a Bom Jesus da Lapa para participar das missas. Depois, um padre descobriu que havia uma gruta aqui e passou a celebrar as missas na região”, conta.
Com o passar dos anos, a tradição religiosa passou a dividir espaço com o interesse pelas cavernas, rios e demais paisagens do parque.
“Logo em seguida vieram os encantos naturais, as belezas e as riquezas do Parque Terra Ronca. A região uniu o turismo religioso ao turismo ecológico”, afirma o secretário.
Essa ligação permanece na Romaria do Bom Jesus da Lapa de Terra Ronca, realizada anualmente em agosto. Conforme Cristiano, a celebração reúne entre 3 mil e 4 mil pessoas, entre moradores, peregrinos e visitantes de municípios goianos e baianos. Parte dos romeiros percorre aproximadamente 42 quilômetros durante a noite até chegar ao santuário instalado na entrada da caverna.
Pinturas rupestres preservam vestígios de antigas ocupações humanas
Além das cavernas, o parque guarda registros arqueológicos em pelo menos dois pontos: nas proximidades da Lapa Pau-Pombo e em um paredão rochoso da Fazenda Vaca Brava. As pinturas apresentam principalmente pigmentação avermelhada e formas humanas e geométricas ainda visíveis sobre as rochas.

Pinturas rupestres encontradas na região de Terra Ronca
Um passo recente para a conservação ocorreu em janeiro de 2025, quando o Estado adquiriu a Fazenda Pau Pombo, com 177,8 hectares. A propriedade reúne o sítio arqueológico e a caverna Pau Pombo, que possui 869 metros de extensão mapeada.
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Source: Turismo
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